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rastro

trabalho contínuo de poesia em série

Angela Meili

Samba Canção (Ana Cristina César)


Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone — taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida me desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

para o ser dos dias n.11

Um retiro, é isso a que me trago. Ambiente etéreo de permanência agradável; onde não é a face, a primeira senha. Contato dissipado entre as direções, sem escada ou porta. Um retiro a que me levo em altar retilíneo de horizonte e cores simples. Onde o tempo dexa-se ameno, além da intensidade aterradora do mundo.

1 day ago 3 notes

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poemas datados

01.06.2012


foco preciso,

rumo seguro.

o querer é certo,

mas o pé não é certo.

há um desapontamento do eixo.

1 day ago 6 notes

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instruções para o abismo (xi)

Existe sim, uma mordaça, mal tecida porém bem amarrada; existe uma frieza que se arma contra a doçura e arranca almas, pedaço a pedaço. O que sobra é a carcaça, figuras bem montadas que são, ao lado de outras, somente administradas - ainda que em fluido - ao longo da solidão coletiva. Existe um aniquilamento contundente dos corações puros e facas apontadas contra os anjos, que se transformam em faces abruptas de espanto.

onde tocaria

Não sei de que paisagem se trata, mesmo assim é um espaço tomado a distância. Não se vê a plasticidade, tendendo-se ao mais (que não é maior, nem profundo). Sutil promessa, talvez, de um desdobramento íntimo, de uma graça. Ainda que referido e medido, não há retorno da superfície sobre a qual se debruça.

Pequenas irregularidades nas pontas, terminações mal feitas: machucam pelo desejo de um ater irrealizável.

banalidade irremissível

Hesito ante uma possível gravura,  predizendo a mediocridade que os seus limites conterão. Cada vez que enunciada, constragerá essa fixidez que fica ao futuro;

ao que olharei enrubecida, sem carinho com meu próprio exercício. Proclamarei o valor do silêncio e aumentarei a dor de estar contendo um sem número de murmúrios inominados.

"Não compreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, já que meus olhos terminaram não se diferenciando da coisa vista. Só por um inesperado tremor de linhas, só por uma anomalia na
continuidade ininterrupta de minha civilização, é que por um átimo experimentei a vivificadora morte. A fina morte que me fez manusear o proibido tecido da vida."
- (a paixão segundo g.h. - c. lispector)

o que era para você ler

Como ser sublime num desabafo? Como apresentar sutilmente um arrependimento cru? Às vezes penso em escrever uma carta e dizer. Mas não ouso. Talvez medo de desencantar um jogo possível.

Medo de ser menos.

O óbvio parece feio quando tornado palavra; não seduz, porque dá todas as respostas. 

Pensar em ti permanece e deveria haver algo além da obsessão que o vazio gera, quando te torna símbolo de uma solidão apenas.

Por isso, traço um perfil de concretude:

1. a anotação que eu não fiz;

2. a vez que eu não dancei;

3. o sorriso que eu deixei de dar quando podia ser tão leve;

4. a calma do momento em que eu te ouviria docemente. 


© Andy Warhol

© Andy Warhol

(Source: theconstantbuzz, via indubio)