Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone — taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida me desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…
Um retiro, é isso a que me trago. Ambiente etéreo de permanência agradável; onde não é a face, a primeira senha. Contato dissipado entre as direções, sem escada ou porta. Um retiro a que me levo em altar retilíneo de horizonte e cores simples. Onde o tempo dexa-se ameno, além da intensidade aterradora do mundo.
01.06.2012
foco preciso,
rumo seguro.
o querer é certo,
mas o pé não é certo.
há um desapontamento do eixo.
Existe sim, uma mordaça, mal tecida porém bem amarrada; existe uma frieza que se arma contra a doçura e arranca almas, pedaço a pedaço. O que sobra é a carcaça, figuras bem montadas que são, ao lado de outras, somente administradas - ainda que em fluido - ao longo da solidão coletiva. Existe um aniquilamento contundente dos corações puros e facas apontadas contra os anjos, que se transformam em faces abruptas de espanto.
Não sei de que paisagem se trata, mesmo assim é um espaço tomado a distância. Não se vê a plasticidade, tendendo-se ao mais (que não é maior, nem profundo). Sutil promessa, talvez, de um desdobramento íntimo, de uma graça. Ainda que referido e medido, não há retorno da superfície sobre a qual se debruça.
Pequenas irregularidades nas pontas, terminações mal feitas: machucam pelo desejo de um ater irrealizável.
Hesito ante uma possível gravura, predizendo a mediocridade que os seus limites conterão. Cada vez que enunciada, constragerá essa fixidez que fica ao futuro;
ao que olharei enrubecida, sem carinho com meu próprio exercício. Proclamarei o valor do silêncio e aumentarei a dor de estar contendo um sem número de murmúrios inominados.
Como ser sublime num desabafo? Como apresentar sutilmente um arrependimento cru? Às vezes penso em escrever uma carta e dizer. Mas não ouso. Talvez medo de desencantar um jogo possível.
Medo de ser menos.
O óbvio parece feio quando tornado palavra; não seduz, porque dá todas as respostas.
Pensar em ti permanece e deveria haver algo além da obsessão que o vazio gera, quando te torna símbolo de uma solidão apenas.
Por isso, traço um perfil de concretude:
1. a anotação que eu não fiz;
2. a vez que eu não dancei;
3. o sorriso que eu deixei de dar quando podia ser tão leve;
4. a calma do momento em que eu te ouviria docemente.
© Andy Warhol
(Source: theconstantbuzz, via indubio)